quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Acidic Youth

Resenha sobre a primeira temporada de Skins UK.



Quando se suspende a ideia de que a vida humana é vazia e desprovida de sentido, pode-se talvez extrair um pouco de humor ou quem sabe até regozijo da própria existência.

E o seriado britânico Skins sabe bem se aproveitar disso.

Esqueça padrões, formalidades. Abra mão de estereótipos tão necessários para rasas construções de personagens. Finja que não é hipócrita por abraçar um país como o nosso que, seguindo os moldes estadunidenses, despudora-se ao mostrar a bunda da Globeleza durante o carnaval, mas se torna cúmplice da censura por repreender trivialidades como um par de seios em "obras" da Globo Filmes.

Skins e o resto da Europa ri de você e seu falso puritanismo.

Como uma série juvenil pós "marcos" como Porks e American Pie, talvez essa produção da BBC infelizmente seja taxada como uma sucessora bastarda desses exemplos por focar em adolescentes que descobrem a vida adulta enquanto colocam o mundo ao avesso. Ainda que esta seja uma leitura quase acertada aos olhos da maioria, eu protesto com demasiada vêemencia.

Skins é, sobretudo, uma leitura artística sobre as identidades.

Os pais, os filhos, os professores e todos os agentes sociais retratados no seriado disformam ou remoldam o que são por causa de "simples" ações. Centrando seus nove capítulos da primeira temporada em cada um dos personagens regulares, temos aqui casos peculiares sobre a homossexualidade, religião, relações de poder, amizade, amor e a passagem do tempo, regado a uma trilha sonora acertada e ao roteiro que efetivamente dá vida aos protagonistas.

Skins, camuflada de uma historieta sobre jovens ingleses que se drogam e pensam/fazem sexo o dia inteiro, mas é tão profunda quanto Beleza Americana e tão sacástica quanto Misfits. E, se tentei aqui livrá-los da mácula do SPOILER, ao menos devo ressaltar sobre os personagens, constuidos de um elenco até então amador, mas afiadíssimo:

Cassie, a anoréxica, deveria ser idolatrada por seu personagem jacksparrowniano e genialidade ocultadas pela máscara de uma louca.
Tony é o playboy que, apesar de todas as suas canalhices, está certo a maior parte do tempo quanto à previsibilidade das pessoas.
Sid é um estúpido e tímido que faz lembrar de épocas negras das vidas de muita gente com ingenuidade exarcebada.
Michelle é um deperdício de oxigênio por nunca se valorizar internamente e confiar só em seus peitos.
Maxxie e Anwar pagam seus momentos em cena pela coesão da dupla: o gay e o muçulmano virgem.
Chris, you son of a bitch. Você é o cara. Me lembra bastante o Goku!
Jal talvez seja a mais afetada do grupo por questões familiares. Poor Jal.
Effy me faz lembrar o porquê eu amo personagens mudos e misteriosos.

Se você não tem crianças na sala, não se auto-engana e quer suspender a depressão,
vá por mim. Baixe Skins - a primeira temporada permita-se um pouco de arte juvenil.



Skins, 9 episódios
2007
Indicada ao BAFTA por melhor drama.

sábado, 31 de dezembro de 2011

ill memories - um retrospecto pessoal sobre 2011

And so it is,
just like I said it would be.

Como uma self-fullfiling prophecy (algo como "profecia auto-realizada), encerra-se mais outro ano ímpar desastroso. Essa regularidade, aliás, já não deveria mais me surpreender, pois desde 2001 lembro-me de sofrer irremediavelmente com a mácula destes números. Ainda assim, 2011 veio, mostrou todas as suas garras e fodeu a minha vida muito mais do que eu sequer imaginava.


Just like I said it would be,
O ano acadêmico foi um desastre. Do que adianta formar se tive que adiar indefinidamente meus estudos por causa do embargo do mestrado?
Do que adianta aprender o be-a-bá da teoria se não poderei aplicá-la em lugar algum?

Just like I said it would be,
os anos ímpares são os típicos anos das perdas e das despedidas. Alguns amigos surgiram, mas outras dúzias se foram. Se eu tiver que me acostumar com a efemeridade da vida tirando por base estatísticas pessoais, o certo é começar a manter uma distância de todo mundo, assim evito o sofrer da partida.

Just like I said it should be,
A maldição do escorpião se reafirma. Não dá pra ser afetivamente realizado antes dos 30. Tenho tentado, juro pelos céus que tenho feito meu dever de casa, mas não é só uma questão de falta de sorte. É o destino se arrastando pelos meus pés me impedindo de amar alguém.

Just like I said it could be,
Em 2009 eu fugi de uma cidade que me metia medo. O problema me era alheio como o sol para o vampiro.
Em 2011 eu só podia fugir de mim mesmo. Era minha mente e todos os meus cismas que me queriam morto. E nossa... passou MUITO perto.
Nessa progressão, receio não respirar para ver a cor de 2013.

Agora, não tenho nenhum vínculo com nada nem a ninguém. 2011 tirou o melhor de mim. Minha alegria, meus amigos, meu futuro.
Por isso, peço licença ao propósito deste blog para vomitar meus resquícios de esperança para 2012:

Espero que o mundo acabe. Pior que tá, só em filme.

Continuarei, durante a intermissão até o fim dos tempos, a postar neste espaço com o simples intuito de entreter a mim mesmo.
Tudo que quero, mais do que nunca, é esquecer quem eu sou, quem eu fui, e o que está reservado para mim neste último ano do calendário maia.

Me dá medo fechar os olhos para tentar dormir. Não sei o que é mais pavoroso:
meus pensamentos ou os meus sonhos de tempos que me assombram e me anulam um futuro.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Humanidade é uma palavra com 10 letras

Impressões sobre a midseason do 2º ano de The Walking Dead

Got bit.
Fever hit.
World gone to shit.
Might as well quit.

A educação se irrefreia, a pólvora sacode e os berros dos mortos errantes soam alto. Em Walking Dead, a tensão de perambular ruas que outrora eram dominadas por carro e gente é de esfriar a espinha. A morte rasteja, é incansável e pára balas em seu peito putrefato.




Walking Dead acompanhou em sua primeira temporada um grupo de sobreviventes que saiu dos perímetros urbanos de Atlanta, Geórgia para se embrenhar numa fazenda cercada por uma grande mata. A filha de um deles está sumida e enquanto bravos homens fazem turnos para encontrá-la, tem de lidar com seus próprios demônios naquele mundo em que a esperança é um tipo de piada de mal gosto. Há gravidez indesejada, questões de moralidade, crianças baleadas,
amores impossíveis, tendências suicidas. O mundo está uma desgraça tanto no além-floresta quanto dentro dos limites campestres.

O segundo ano, que até então tem se desenvolvido no arco da fazenda, suscitou perguntas e holofoteou estereótipos que a televisão difícilmente vê diariamente. Shane diz sob uma voz rouca, cansada e irasciva que se é pra procurar segurança, já é tempo de parar com as buscas e botar abaixo o celeiro cheio de zumbis. O massacre então começa com aquele estilo western apocalíptico, marca registrada do seriado. Mas a beleza de toda uma temporada está nos segundos finais, ao presenciar Sophia esgueirando-se para fora do abrigo como uma infectada, visando unicamente alimentar-se de carne fresca, e ver Rick tomar a dianteira para disparar a bala da verdade: se seu filho se tornasse um morto-vivo, quanto lhe custaria despachá-lo para o além?

The Walking Dead é um programa sobre momentos (o zumbi no fosso, a flor dos índios Cherokee), perspectivas (o tiro de Shane contra Ottis, a noção redneck de Daryl) e valores (a integridade de Rick - a razão sobre a emoção e a política de boa vizinhnha). Acreditar que a ficção científica é um fim em si é descompreender o que as maiores mentes sobre o assunto já discorreram (Isaac Asimov, Allan Moore, Phillip K. Dick, George Orwell). A ficção é a metáfora por excelência, é contar sobre os humanos e seus mitos através das transfigurações que a imginação recebe, metamorfoseadas em formas de arte.

Se você espera de um canal como a AMC cujo mote é "Story Matters Here" um seriado sobre homens matando zumbis enquanto realizam parkour, você entendeu errado a propaganda. Se não gosta de cenas que duram 10, 20, 30 segundos sobre pessoas que dizem tudo sem dizer uma palavra (Shane após conversar com Lori), talvez THE CW fosse um canal mais condizente com o seu gosto.

The Walking Dead é poesia fantástica a 24 frames por segundo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Virtual Suicide

Novidades a caminho.
Vem aí uma nova vida online.

Para mais contatos, favor deixar um recado aqui mesmo ou
no meu email laguna.letras@hotmail.com

Vejo-os aqui dentro!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Neo Noir Britânico

review sobre a série LUTHER

*****

Quando era mais novo, o cinema europeu me parecia coisa de gente Cult. Filmes monótonos e que não pareciam chegar a lugar algum, mas mesmo assim surgiam recheados de menções honrosas em suas capas de DVD que indicavam prêmios conquistados ao redor do mundo.

Como a maioria dos brasileiros, cresci vendo filmes americanos e por esse mesmo motivo não foi fácil gostar do cinema do Velho Mundo, já que em sua essência eles em nada se parecem. Entretanto, os anos passaram e minha perspectiva mudou. Continuo fã inveterado do Tio Sam, mas agora enxergo suas limitações concernentes à censura, à captação financeira, e ao showbiz.

Dito isso, apresento-lhes Luther, uma série britânica produzida a partir de 2010 pela BBC que consiste em duas temporadas até o momento: a primeira com seis capítulos e a segunda com apenas quatro. Diga-se de passagem, este formato da terra da rainha soa bem mais enxuto do que os exagerados 23 capítulos anuais que muitas produções americanas possuem, servindo em sua maioria como fillers desnecessários para tramas que demoram a se desenrolar (vide Supernatural).

Luther conta o dilema de seu personagem título, um negro alto que recupera seu emprego como investigador depois de supostamente deixar com que um criminoso morresse num precipício. Como se não bastasse, também precisa convencer sua esposa a reatarem seu frágil casamento, à beira de uma ruptura depois de tantos anos em crise. A série policial, apesar de utilizar diversos elementos do gênero para se sustentar (casos da semana, genialismos dos personagens para resolver os crimes, chefes insuportáveis, etc), se destaca pela violência gráfica que pinta Londres de uma maneira mais sombria e perigosa, muito mais voltada ao Mundo das Trevas da White Wolf do que CSI. Em Luther, os vilões são ainda mais insanos e perigosos, os heróis são imorais e a sociedade evoca aquele tipo de sentimento descrito por Allan Moore em sua obra prima Watchmen: decadente, corrupta, amarga. Os casos, que nem sempre são resolvidos, revela ao espectador que o triunfo da ordem sobre o caos é quase sempre um milagre. E quando me referi à insanidade dos vilões, quero compará-los a personalidades não menos ameaçadoras que o próprio Coringa, capazes de atear fogo no mundo só pra vê-lo arder. Veja por exemplo Alice, o primeiro antagonista do seriado, que mata a mãe, o pai e o cachorro apenas para provar à si mesma e à polícia de que sua inteligência ímpar jamais deixaria que fosse descoberta.

Se os vilões de representam 30% de todo o brilhantismo do programa, outros 30% é em favor de seu protagonista. Idris Elba compõe John Luther como um personagem profundo, um misto de Dexter, Cal Lightman e um toque próprio, regado a um comportamento de alguém que contempla a morte e a auto-destruição. Quando está imerso na captura de bandidos, Luther se mostra sempre perspicaz e dinâmico, capaz de improvisar sempre que as regras do jogo mudam ou quando suas deduções não estão certas (ponto para o roteiro!). Quando seu lado pessoal é levado em jogo, se mostra passional e destrutivo, sujeito a reagir explosivamente quando colocado sob pressão ou injustiçado. É o desapego pela própria vida que torna seu modus operandi tão fascinante.

Mais 30% de qualidade são ofertados pelo roteiro cujo brilhantismo se torna responsável por reciclar um tema tão comum e recriá-lo ao melhor estilo noir. Auto-destruição, corrupção e anti-heroísmo são as palavras-chave do seriado. Os diálogos são um show à parte. Contemplando a cidade de cima do prédio, a um passo de cair, o detetive remói seus próprios demônios enquanto se julga inapto de lidar com a realidade que tem de enfrentar. Seu amigo se aproxima e pergunta se podem conversar num lugar menos intimidador, mas Luther responde:

-“Você já fez isso? Chegar a um local verdadeiramente alto e perguntar-se como seria simplesmente cair?”

-“Cair ou pular?”

-“É a mesma coisa”.

-“Tomo a liberdade de discordar. Mas, na maioria das vezes vou pra casa ver America’s Next Top Model”.

-“Não se preocupa em estar do lado do diabo e nem mesmo saber que é ele?”

-“Não”.

Spoilers à parte, esta conversa representa uma bela metáfora sobre o presente de Luther, sentindo-se extremamente culpado por suas ações, não obstante não arrependido por elas. Assistam e me digam o que esta cena representa para cada um de vocês.

Por fim, os últimos 10% vai para a soberba trilha sonora, que abusa de canções de rock americano e britânico para dar um tom mais pesado e mais angustiante aos capítulos. Me refiro ao som de Marilyn Manson, Muse, Beck, Massive Attack e outras jóias da música internacional que reconhecerão ao serem tocadas.

Espero honestamente que tenha despertado o interesse de vocês em assisti-la. Luther é uma dessas séries que passará batido para a maioria dos brasileiros, mas é claro que seu público-alvo é mais selecionado. Se gosta de histórias de crimes engenhosamente planejados, finais infelizes e gosta de ser surpreendido por cenas chocantes de violência, faça um favor a si mesmo e baixe esta produção.

Clique abaixo e assista ao trailer!

http://www.youtube.com/watch?v=fnIr5bo99bA&feature=related