domingo, 15 de janeiro de 2012

Be Quiet and Drive

resenha sobre o filme Drive
dirigido por Nicholas Winding Refn, com Ryan Gosling, Carey Mulligan e Bryan Cranston.
EUA, 2011

Há anos bato na mesma tecla a respeito do talentoso ator canadense Ryan Gosling. Enquanto todo mundo corre aos cinemas para ver o novo filme do Johnny Depp, a minha ansiedade se direciona por conta desse cara que aprendeu atuar sozinho e foi home schooled (no estrangeiro, as famílias podem ensinar aos seus filhos o conteúdo ensinado nas escolas em suas próprias casas).
E em 2010/2011 o cara deu show. Blue Valentine, Drive, Crazy Stupid Love e Ides of March são quatro pérolas atuadas por Gosling, todas reconhecidas por premiações ao redor do mundo e que me fez sentir na obrigação de escrever algo a respeito.

Drive, devidamente ovacionado em Cannes, é o conto sobre um homem viciado em adrenalina. Durante o dia trabalha como dublê, à noite é motorista de bandidos em fuga. Com seu comportamento comedido, sua blusa de cetim com um escorpião talhado nas costas uma propensão de economizar palavras, o motorista sem nome espreita à visualmente bela Los Angeles sem dizer de onde veio ou para onde vai. Por baixo de todo o arquétipo misterioso há um ser humano extremamente passional, seguro de si e habilidoso em seu ofício.

Em Drive, uma adaptação do livro de mesmo nome lançado em 2005, o dinamarquês Nicolas Winding Refn procura um ponto de equilíbrio entre narrativa e técnica. A história, aparentemente simples, se fortifica por uma estilização no mínimo tão eficiente quanto a empregada em Donnie Darko: a tentativa de situar um filme atual em padrões da época dos anos 80. O resultado é tão interessante (e até óbvio) que nenhum espectador deixará de notar o visual retrô com seu cast de neon rosa, músicas etéreas que abusam de sintetizadores e personagens mal encarados como se tirados diretamente dos filmes do Charles Bronson.

Referência, aliás, é o cerne da produção: a experiência de se assistir Drive é como desfrutar de momentos tarantinescos com uma ultra-violência vinda direta de Gaspar Noé e, por que não, das desventuras de Onde os Fracos não tem vez. É a evidência induscutível que vivemos em tempos de colagens e reaproveitamentos, em que o progresso da arte trilha se inibe em trilhar caminhos experimentais (como o recente Árvore da Vida e o concorrente à Palm d'Or do ano passado Kynodontas) e flerta cada vez mais com a reciclagem de gêneros e estilos.

Não que haja algum demérito neste tipo de abordagem em relação às mais visionárias. Nas mãos de um cineasta sem talento, Drive poderia se aproximar facilmente de filmes do Steven Seagal ou até mesmo Velozes e Furiosos. Entretanto, para a infelicidade dos adoradores de blockbuster, esta película agraciada com o Grande Prêmio do Júri na França possui seu próprio ritmo, sua própria mentalidade. Talvez pelo seu ar quase meditativo, repleto de momentos sem diálogo e slow motion, a impressão é a de observar uma pintura pós-moderna em movimento, é ter a consciência de que o motorista de Ryan Gosling e todos os malfeitores daquela fictícia L.A. são de facto apenas cinema, e na simbiose de estilo, violência gráfica e trilha sonora, somos deliciosamente arremessados para dentro do filme.

Com grande chances de ser reconhecido pelo Oscar em algumas das categorias principais (direção, atuação, produção, fotografia e trilha sonora), Drive só pode decepcionar mesmo a quem o compre como um filme de ação do verão, assim como uma mulher do estado de Michigan, EUA, que entrou com um processo contra os distribuidores desta película de Refn por achar que o que o que mais faltou foi o driving em si.

Sure, sis.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Acidic Youth

Resenha sobre a primeira temporada de Skins UK.



Quando se suspende a ideia de que a vida humana é vazia e desprovida de sentido, pode-se talvez extrair um pouco de humor ou quem sabe até regozijo da própria existência.

E o seriado britânico Skins sabe bem se aproveitar disso.

Esqueça padrões, formalidades. Abra mão de estereótipos tão necessários para rasas construções de personagens. Finja que não é hipócrita por abraçar um país como o nosso que, seguindo os moldes estadunidenses, despudora-se ao mostrar a bunda da Globeleza durante o carnaval, mas se torna cúmplice da censura por repreender trivialidades como um par de seios em "obras" da Globo Filmes.

Skins e o resto da Europa ri de você e seu falso puritanismo.

Como uma série juvenil pós "marcos" como Porks e American Pie, talvez essa produção da BBC infelizmente seja taxada como uma sucessora bastarda desses exemplos por focar em adolescentes que descobrem a vida adulta enquanto colocam o mundo ao avesso. Ainda que esta seja uma leitura quase acertada aos olhos da maioria, eu protesto com demasiada vêemencia.

Skins é, sobretudo, uma leitura artística sobre as identidades.

Os pais, os filhos, os professores e todos os agentes sociais retratados no seriado disformam ou remoldam o que são por causa de "simples" ações. Centrando seus nove capítulos da primeira temporada em cada um dos personagens regulares, temos aqui casos peculiares sobre a homossexualidade, religião, relações de poder, amizade, amor e a passagem do tempo, regado a uma trilha sonora acertada e ao roteiro que efetivamente dá vida aos protagonistas.

Skins, camuflada de uma historieta sobre jovens ingleses que se drogam e pensam/fazem sexo o dia inteiro, mas é tão profunda quanto Beleza Americana e tão sacástica quanto Misfits. E, se tentei aqui livrá-los da mácula do SPOILER, ao menos devo ressaltar sobre os personagens, constuidos de um elenco até então amador, mas afiadíssimo:

Cassie, a anoréxica, deveria ser idolatrada por seu personagem jacksparrowniano e genialidade ocultadas pela máscara de uma louca.
Tony é o playboy que, apesar de todas as suas canalhices, está certo a maior parte do tempo quanto à previsibilidade das pessoas.
Sid é um estúpido e tímido que faz lembrar de épocas negras das vidas de muita gente com ingenuidade exarcebada.
Michelle é um deperdício de oxigênio por nunca se valorizar internamente e confiar só em seus peitos.
Maxxie e Anwar pagam seus momentos em cena pela coesão da dupla: o gay e o muçulmano virgem.
Chris, you son of a bitch. Você é o cara. Me lembra bastante o Goku!
Jal talvez seja a mais afetada do grupo por questões familiares. Poor Jal.
Effy me faz lembrar o porquê eu amo personagens mudos e misteriosos.

Se você não tem crianças na sala, não se auto-engana e quer suspender a depressão,
vá por mim. Baixe Skins - a primeira temporada permita-se um pouco de arte juvenil.



Skins, 9 episódios
2007
Indicada ao BAFTA por melhor drama.

sábado, 31 de dezembro de 2011

ill memories - um retrospecto pessoal sobre 2011

And so it is,
just like I said it would be.

Como uma self-fullfiling prophecy (algo como "profecia auto-realizada), encerra-se mais outro ano ímpar desastroso. Essa regularidade, aliás, já não deveria mais me surpreender, pois desde 2001 lembro-me de sofrer irremediavelmente com a mácula destes números. Ainda assim, 2011 veio, mostrou todas as suas garras e fodeu a minha vida muito mais do que eu sequer imaginava.


Just like I said it would be,
O ano acadêmico foi um desastre. Do que adianta formar se tive que adiar indefinidamente meus estudos por causa do embargo do mestrado?
Do que adianta aprender o be-a-bá da teoria se não poderei aplicá-la em lugar algum?

Just like I said it would be,
os anos ímpares são os típicos anos das perdas e das despedidas. Alguns amigos surgiram, mas outras dúzias se foram. Se eu tiver que me acostumar com a efemeridade da vida tirando por base estatísticas pessoais, o certo é começar a manter uma distância de todo mundo, assim evito o sofrer da partida.

Just like I said it should be,
A maldição do escorpião se reafirma. Não dá pra ser afetivamente realizado antes dos 30. Tenho tentado, juro pelos céus que tenho feito meu dever de casa, mas não é só uma questão de falta de sorte. É o destino se arrastando pelos meus pés me impedindo de amar alguém.

Just like I said it could be,
Em 2009 eu fugi de uma cidade que me metia medo. O problema me era alheio como o sol para o vampiro.
Em 2011 eu só podia fugir de mim mesmo. Era minha mente e todos os meus cismas que me queriam morto. E nossa... passou MUITO perto.
Nessa progressão, receio não respirar para ver a cor de 2013.

Agora, não tenho nenhum vínculo com nada nem a ninguém. 2011 tirou o melhor de mim. Minha alegria, meus amigos, meu futuro.
Por isso, peço licença ao propósito deste blog para vomitar meus resquícios de esperança para 2012:

Espero que o mundo acabe. Pior que tá, só em filme.

Continuarei, durante a intermissão até o fim dos tempos, a postar neste espaço com o simples intuito de entreter a mim mesmo.
Tudo que quero, mais do que nunca, é esquecer quem eu sou, quem eu fui, e o que está reservado para mim neste último ano do calendário maia.

Me dá medo fechar os olhos para tentar dormir. Não sei o que é mais pavoroso:
meus pensamentos ou os meus sonhos de tempos que me assombram e me anulam um futuro.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Humanidade é uma palavra com 10 letras

Impressões sobre a midseason do 2º ano de The Walking Dead

Got bit.
Fever hit.
World gone to shit.
Might as well quit.

A educação se irrefreia, a pólvora sacode e os berros dos mortos errantes soam alto. Em Walking Dead, a tensão de perambular ruas que outrora eram dominadas por carro e gente é de esfriar a espinha. A morte rasteja, é incansável e pára balas em seu peito putrefato.




Walking Dead acompanhou em sua primeira temporada um grupo de sobreviventes que saiu dos perímetros urbanos de Atlanta, Geórgia para se embrenhar numa fazenda cercada por uma grande mata. A filha de um deles está sumida e enquanto bravos homens fazem turnos para encontrá-la, tem de lidar com seus próprios demônios naquele mundo em que a esperança é um tipo de piada de mal gosto. Há gravidez indesejada, questões de moralidade, crianças baleadas,
amores impossíveis, tendências suicidas. O mundo está uma desgraça tanto no além-floresta quanto dentro dos limites campestres.

O segundo ano, que até então tem se desenvolvido no arco da fazenda, suscitou perguntas e holofoteou estereótipos que a televisão difícilmente vê diariamente. Shane diz sob uma voz rouca, cansada e irasciva que se é pra procurar segurança, já é tempo de parar com as buscas e botar abaixo o celeiro cheio de zumbis. O massacre então começa com aquele estilo western apocalíptico, marca registrada do seriado. Mas a beleza de toda uma temporada está nos segundos finais, ao presenciar Sophia esgueirando-se para fora do abrigo como uma infectada, visando unicamente alimentar-se de carne fresca, e ver Rick tomar a dianteira para disparar a bala da verdade: se seu filho se tornasse um morto-vivo, quanto lhe custaria despachá-lo para o além?

The Walking Dead é um programa sobre momentos (o zumbi no fosso, a flor dos índios Cherokee), perspectivas (o tiro de Shane contra Ottis, a noção redneck de Daryl) e valores (a integridade de Rick - a razão sobre a emoção e a política de boa vizinhnha). Acreditar que a ficção científica é um fim em si é descompreender o que as maiores mentes sobre o assunto já discorreram (Isaac Asimov, Allan Moore, Phillip K. Dick, George Orwell). A ficção é a metáfora por excelência, é contar sobre os humanos e seus mitos através das transfigurações que a imginação recebe, metamorfoseadas em formas de arte.

Se você espera de um canal como a AMC cujo mote é "Story Matters Here" um seriado sobre homens matando zumbis enquanto realizam parkour, você entendeu errado a propaganda. Se não gosta de cenas que duram 10, 20, 30 segundos sobre pessoas que dizem tudo sem dizer uma palavra (Shane após conversar com Lori), talvez THE CW fosse um canal mais condizente com o seu gosto.

The Walking Dead é poesia fantástica a 24 frames por segundo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Virtual Suicide

Novidades a caminho.
Vem aí uma nova vida online.

Para mais contatos, favor deixar um recado aqui mesmo ou
no meu email laguna.letras@hotmail.com

Vejo-os aqui dentro!